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| Foto: Pinterest / Reprodução |
Enquanto ela se olhava no espelho, via tudo aquilo que esperava de si: as hidratações no cabelo surtiram efeito, a dieta sem carboidratos eliminou todas aquelas gorduras localizadas que a incomodavam desde a infância. As notas baixas da escola, os ex-namorados, as amigas falsas, tudo havia ficado para trás – estava em uma nova fase agora e nada daquilo importaria.
A vida toda se sentiu inferior. Não importava a quem se comparava, Anita sempre sentia sua insegurança atrapalhando qualquer chance de relacionamento – e a culpa era sempre sua. No primeiro ano do ensino médio, saiu correndo de um rapaz que poderia facilmente ter sido o amor da sua vida apenas por achar que ele merecia algo melhor. Assim, sem nem o conhecer.
Sentia medo de escrever e ninguém ler, de dançar e todos rirem, de vestir algo e as pessoas julgarem ser ridículo e por isso optava pelo básico: dizia que preto era sua cor, pois sabia que no preto ninguém colocaria defeito.
Mas não era do preto. Era do azul, do rosa, das estampas de passarinho. Ela queria ser livre para ser quem realmente é, sem ter medo do que seus pais diriam. Queria ouvir Nando Reis em público sem se importar em ser clichê. A tatuagem dos seus sonhos era a frase “Carpe Diem”. Queria andar por ai com pirulitos coloridos, contando as estrelas e com um balão nas mãos.
Mas não falava nada disso – guardava para si, pois quem gostaria de alguém cujo lema pessoal é a frase da aula de literatura? Não queria guardar dentro de si seu amor pelo arcadismo. Tinha tantos sonhos ainda – conhecer a Disney, namorar alguém em Paris, curtir uma noite em Las Vegas. Não queria mais aquele vazio que dizia que nunca seria capaz de nada realmente bom.
É claro que uma hora cansou. Cansou de ouvir músicas conceituadas quando sua vontade era sair por aí gritando que seu amor não será passageiro. Procurou dentro de si algo que a libertasse, permitisse ser quem fosse sem ninguém presumir coisa alguma. Bloqueou no facebook e twitter todos aqueles que algum dia a fizeram sentir-se mal. Achou engraçado quando algumas das suas amigas vieram perguntar o porquê do desaparecimento – logo elas que diziam que Anita nunca teria um namorado pois não “daria conta”.
Encontrou nos livros tudo o que precisava e, na poesia de Leminski mergulhou desde então. Levou algum tempo, no entanto, para aceitar-se do jeito que é. Foi algo que exigiu dedicação – afinal de contas um padrão de
perfeição não deixa a nossa mente de um dia pro outro. Começou usando aquele vestido verde com estampa de passarinhos que sua mãe disse ser a sua cara, mas que estava jogado no fundo do armário desde o dia em que saiu da loja. Sentiu-se fantástica quando reparou que ninguém criticou ao vê-la assim – a mãe, aliás, até sorriu.
Hoje, quando se põe em frente ao espelho, é inevitável sorrir. Seu cabelo, suas roupas e seu corpo no reflexo são exatamente aquilo que Anita sentia: uma confusão. Sua confusão. Quando poderia imaginar que a confusão a poderia fazer tão feliz?

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